Os livros decalcados nas frases sublinhadas e o deslumbramento dos autores que me ensinam a espreitar pelo buraco da fechadura. Personagens complexas, escrita poética e literatura intensa no ato e o detalhe.
os livros do mês de abril
16 – A Paixão Segundo G.H., Clarice Lispector
Um dos romances mais intensos e filosóficos de Clarice Lispector, acompanha G.H., uma mulher da alta sociedade carioca que, ao entrar no quarto da empregada, vê a sua identidade ruir perante uma experiência aparentemente banal. O encontro com uma barata.
A partir desse momento, o livro transforma-se numa viagem vertiginosa sobre a existência, a linguagem, a humanidade e o vazio.
Clarice escreve como quem desmonta a consciência humana frase a frase, num romance introspetivo e desconcertante.
Há um lugar, de nome por inventar, onde se fica após ler Clarice. Um lugar sem rede ou retorno. Um lugar de ânsia, êxtase, deslumbramento e paixão.
“Eu recuara até à medula dos meus ossos, o meu último reduto. Onde, na parede, eu estava tão nua que não fazia sombra.”
17 – A louca da casa, Rosa Montero
Neste híbrido entre ensaio, autobiografia e ficção, Rosa Montero reflete sobre a criação literária, a imaginação e os medos íntimos de quem escreve.
Mistura memórias pessoais, histórias inventadas e referências a grandes autores, o livro explora a fronteira ténue entre a realidade e a ficção.
Inteligente, melancólico e cheio de humor, é uma ode ao poder das histórias e ao caos criativo que habita a mente dos escritores.
Mais um livro que não sairá da minha mesa, da mente e da mão. Ao alcance do barulho das personagens e dos devaneios da narrativa que foge quando chove lá fora e adormece a meio de um parágrafo.
O preferido do mês.
“Escrever, enfim, é ser habitado por um amontoado de fantasias, às vezes preguiçosas como lentos devaneios de uma sesta estival, às vezes agitadas e febris como o delírio de um louco. A cabeça de um romancista caminha por si só; é possuída por uma espécie de compulsão fabuladora e isso às vezes é um dom e outras vezes um castigo.”
18 – O cisne negro, Thomas Mann
Nesta novela breve e elegante, Thomas Mann mergulha nos temas do envelhecimento, do desejo e da ilusão.
A protagonista, Rosalie, uma viúva de meia-idade, acredita viver um renascimento emocional e físico ao apaixonar-se por um homem mais novo. Porém, a narrativa revela, em lume brando, a fragilidade das esperanças humanas diante do corpo e do tempo.
Com uma sofisticação psicológica, o livro fala sobre a necessidade que temos de beleza e de amor, mesmo perante a decadência inevitável. A do corpo e a da alma.
“Não poderia a renúncia ser também uma felicidade, não quando procedia dum lamentável imperativo, mas quando era consentida em toda a liberdade e com a consciência da igualdade de direitos?”
19 – A casa das Malvas, Valentina Silva Ferreira
Neste romance delicado e atmosférico, Valentina Silva Ferreira constrói uma narrativa marcada pela memória, pelas relações familiares e pelo peso silencioso do passado.
A casa surge como um espaço real e simbólico, onde as emoções, as ausências e os segredos permanecem vivos. Com uma escrita sensível e contemplativa, o livro explora os vínculos entre gerações e como os lugares são tão bons a guardar aquilo, tudo e todos, o que as pessoas tentam esquecer.
Um belíssimo romance com uma história que acaba de começar. Adorei.
“Quis transformar Elodie na âncora que ele nunca tivera, e, ao fazê-lo, esqueceu-se de que ela era mar.”
20 – A solidão dos números primos, Paolo Giordano
O romance de estreia de Paolo Giordano acompanha Alice e Mattia, duas personagens marcadas por traumas de infância, que crescem incapazes de se aproximar verdadeiramente dos outros.
Tal como os números primos gémeos, próximos, mas sem nunca se tocarem, os dois orbitam em torno um do outro ao longo de uma vida. Quase se cruzam e é sempre no quase que habitamos e na esperança que a matemática falhe e as letras vençam.
Com uma escrita contida e emocional, o livro fala sobre a solidão, a fragilidade emocional e as cicatrizes invisíveis que moldam todas as relações humanas.
Ansiei por cada encontro e chorei por um final distinto.
Uma história de amor para além do beijo, do corpo e da casa. Um amor de amizade profunda, cozinhado nos anos e para a eternidade. Mesmo que esta seja finita.
“Descobrem-se números primos cada vez mais isolados, perdidos naquele espaço silencioso e cadenciado (…) e nota-se o pressentimento angustiante de que os pares encontrados até aí foram um facto acidental.”



